O Museu Histórico da Cidade, no Rio de Janeiro, prepara-se para sediar o Festival Motirõ – Palavras da Mata, um evento dedicado à rica ancestralidade e efervescente produção cultural indígena. Marcado para o próximo sábado, 28, o festival convida o público a uma imersão gratuita nos saberes e expressões dos povos originários, oferecendo uma programação diversificada que transcende a mera celebração, posicionando-se como um ato de afirmação e reconhecimento em pleno espaço urbano.
Visibilidade e Resistência: O Propósito do Motirõ
A curadoria do Motirõ – Palavras da Mata está sob a responsabilidade da escritora e arte-educadora Emiliana Marajoara, que enfatiza a urgência de iluminar a produção indígena contemporânea. Segundo Marajoara, a ocupação de um espaço histórico da cidade com as narrativas e criações dos povos originários é um movimento potente contra o apagamento histórico, reafirmando que a cultura indígena é parte integrante e viva da história do Rio de Janeiro e do Brasil. O festival surge, portanto, como uma resposta direta à invisibilidade muitas vezes imposta à cultura indígena em contextos urbanos, reiterando que esses povos continuam a ser pilares fundamentais na produção artística, intelectual e literária do país.
Uma Jornada por Sons, Saberes e Artes
A partir das 10h, o público poderá desfrutar de uma programação abrangente que inclui intervenções artísticas, oficinas artesanais e rodas de conversa. As oficinas, por exemplo, oferecem a oportunidade de confecção de maracás, a exploração de sonoridades arbóreas com bambu, a criação com sementes e a colagem artística de CDs, proporcionando uma experiência prática e criativa. Para as crianças, o festival reserva momentos de encantamento com rodas de contação de histórias e intervenções lúdicas de grafismo, permitindo que os pequenos explorem as tradicionais pinturas corporais indígenas e se conectem com essas ricas manifestações culturais.
Vozes Plurais: Convidados e Diversidade Étnica
O evento reunirá uma constelação de talentos e lideranças indígenas residentes no Rio de Janeiro, incluindo escritores, artistas plásticos, artesãos, professores e músicos. Entre os convidados de destaque estão Urutau Guajajara, professor de cultura indígena e pesquisador de linguística, reconhecido por sua liderança no movimento pelos direitos indigenistas; Daua Puri, fundador do Museu da Cultura Puri; Potyra Krikati, artesã e ativista indígena; além da própria curadora, Emiliana Marajoara. Essa pluralidade de vozes garante um diálogo rico e multifacetado, com a presença confirmada de representantes de diversas etnias como Puri, Tupinambá, Xavante, Guajajara, Marajoara, Xakriabá e Anambé, consolidando o Motirõ como um espaço de legítima interculturalidade e intercâmbio de saberes.
O Mosaico Indígena Carioca: Perspectivas do Censo 2022
A relevância do Festival Motirõ é ainda mais acentuada pelos dados do Censo Indígena de 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Brasil abriga quase 1,7 milhão de indígenas, representando 0,83% de sua população. No estado do Rio de Janeiro, a população indígena soma 16.994 pessoas, com cerca de 94% residindo em áreas urbanas e 5,4% em zonas rurais. O estado destaca-se por abrigar 207 etnias, posicionando-o como o sétimo com o maior número de povos indígenas no país.
A capital fluminense, em particular, apresenta um cenário de notável diversidade, contando com 176 etnias. Este dado coloca a cidade do Rio de Janeiro como a terceira mais diversa do país em termos de povos indígenas, superada apenas por São Paulo (194 etnias) e Manaus (186 etnias). Esse panorama sublinha a importância de iniciativas como o Festival Motirõ, que promovem o reconhecimento e a valorização da riquíssima tapeçaria cultural indígena que pulsa nas metrópoles brasileiras.
Financiado com recursos do Edital Viva o Talento – Edição Rio Capital Mundial do Livro, integrado à Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o Festival Motirõ – Palavras da Mata é mais do que um evento cultural; é uma afirmação da presença, da vitalidade e da contribuição contínua dos povos indígenas para a sociedade brasileira. Ao abrir as portas do Museu Histórico da Cidade, o festival estabelece uma ponte essencial entre o passado e o presente, convidando a todos a celebrar e aprofundar o entendimento sobre a riqueza dos saberes indígenas em um dos mais importantes centros culturais do Rio de Janeiro.