A Bolívia enfrenta uma onda de protestos que desafiam a administração do presidente Rodrigo Paz, apenas seis meses após sua posse. Os bloqueios nas estradas ao redor de La Paz refletem a insatisfação popular em resposta à recente promulgação da Lei 1.720, que modifica a propriedade de terras no país e ameaça os direitos de comunidades indígenas e camponesas.
A Lei 1.720 e suas Consequências
Aprovada em março de 2026, a Lei 1.720 foi promulgada em 10 de abril e permite a transformação de pequenas propriedades em médias, facilitando o acesso a créditos. Embora o governo defenda a norma como uma oportunidade para revitalizar a agricultura e a economia boliviana, muitos grupos sociais alertam para os riscos que ela representa. Movimentos indígenas e campesinos temem que a nova legislação favoreça a especulação imobiliária e prejudique a segurança das terras coletivas.
Reação da População e Mobilização
Em resposta à promulgação da lei, organizações indígenas e populares iniciaram marchas em direção a La Paz, partindo das regiões de Pando e Beni. Ao longo de quase 30 dias, os manifestantes percorreram mais de 400 quilômetros, bloqueando acessos à capital. A mobilização ganhou força com a adesão de diversos setores, incluindo professores e mineiros, que exigem a revogação da lei e a renúncia do presidente Paz.
Greve Geral e Ações Sindicais
A Central Operária Boliviana (COB), principal entidade sindical do país, declarou uma greve geral por tempo indeterminado. Em meio a um cenário de repressão policial e detenções de líderes, a COB reivindica, entre outras questões, um aumento de 20% no salário mínimo. A eficácia dos bloqueios de estradas é destacada por especialistas, que ressaltam como essa tática pode isolar a capital e pressionar o governo a dialogar com os manifestantes.
Revogação da Lei e Respostas do Governo
Em 12 de maio, o presidente Rodrigo Paz anunciou a revogação da Lei 1.720, oferecendo um prazo de 60 dias para que o Parlamento discutisse uma nova proposta. Durante um comunicado, Paz enfatizou a importância do diálogo e da consulta pública para a criação de uma nova norma fundiária. No entanto, líderes sindicais, como Humberto Claros da CSUTCB, expressaram ceticismo, considerando a revogação uma manobra temporária que poderia resultar em uma nova legislação prejudicial.
Aumento da Tensão e Criminalização do Movimento
Paralelamente aos protestos, o governo de Rodrigo Paz tenta deslegitimar os manifestantes, acusando-os de serem infiltrados e apresentando acusações sem evidências concretas. Essa estratégia tem contribuído para aumentar a tensão entre a população e as autoridades, enquanto os protestos continuam a se intensificar em busca de mudanças significativas na política agrária e na administração do governo.
Conclusão
Os recentes protestos na Bolívia, impulsionados pela insatisfação com a Lei 1.720 e pela crise econômica, revelam um descontentamento profundo com o governo de Rodrigo Paz. A mobilização popular, que une diversos setores da sociedade, destaca a importância do diálogo e da consideração das vozes comunitárias na formulação de políticas. O desfecho dessa crise política poderá moldar o futuro da governança no país e a proteção dos direitos territoriais das comunidades indígenas e camponesas.