Em meio ao ritmo pulsante do Recife, clubes tradicionais como o Clube das Pás, o Clube Lenhadores e o Clube Bela Vista resistem como guardiões de uma rica história cultural. Nesses espaços, os bailes, embalados por orquestras e luzes vibrantes, continuam a atrair pessoas de todas as idades, unidas pela paixão pela música e pela dança.
Esses clubes, com suas regras peculiares – nada de bebida na pista, travessias do salão apenas entre danças e “carinhos intensos” restritos à área externa – oferecem um refúgio da modernidade e um espaço de socialização valioso, especialmente para as mulheres. Em um cenário onde a dança ganha novas dinâmicas, dançarinos profissionais acompanham mulheres que buscam diversão e redescoberta em qualquer fase da vida.
O Clube das Pás, com seus 137 anos de história, é um dos símbolos mais antigos da cultura recifense. Fundado por carvoeiros em 1888 e declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Recife, o clube oferece bailes temáticos quase todos os fins de semana. Álvaro Melo, diretor de promoções, destaca a combinação de tradição e acolhimento como a chave para o sucesso das festas.
A presença dos “Pés de Valsa”, dançarinos profissionais vestidos de preto, suspensórios e sapatos de bico fino, é um símbolo de empoderamento feminino. Lêda Melo, frequentadora assídua de 75 anos, celebra a liberdade de poder escolher seus parceiros de dança. Jefferson Silva, um dos “pés de valsa”, encontra na dança uma forma de aliviar o estresse do dia a dia e compartilhar alegria com os outros. Nice Pereira, aos 81 anos, encontra no clube um espaço para celebrar a vida e desfrutar da companhia de amigos.
O Clube Lenhadores, localizado na Mustardinha, possui uma história singular. Nascido de uma divisão no Clube das Pás, o clube se tornou um espaço de resistência negra na Zona Oeste do Recife. Maria Cleta Souza, diretora administrativa, explica que a cisão ocorreu devido à discordância com a candidatura de uma mulher à presidência do Clube das Pás.
Apesar dessa origem controversa, o Clube Lenhadores foi pioneiro na criação da Matinê Branca, uma festa de gala para a população negra em um período de exclusão racial. Hoje, o evento mantém a tradição dos trajes brancos e decoração prateada, simbolizando orgulho e memória coletiva. Além da Matinê, o Lenhadores oferece uma programação semanal diversificada, incluindo o “Revivendo o Passado”, noites de DJ e o ciclo da “Boa Idade”, atraindo públicos de diferentes gerações.
Já o Clube Bela Vista, situado em Água Fria, destaca-se pela Noite Cubana, uma festa inspirada nos ritmos latinos que se tornou Patrimônio Cultural Imaterial do Recife. João Batista, presidente do clube, explica que a Noite Cubana surgiu da paixão de um grupo de amigos pela música latina. O sucesso do evento atraiu um público diversificado e reconhecimento acadêmico.
A alma da Noite Cubana é Valdir Português, discotecário do clube desde 1992. Aos 81 anos, o DJ continua a comandar a festa, selecionando músicas de seu vasto acervo de CDs. Valdir Português também levou o estilo do Bela Vista para outros públicos, incluindo a Virada Cultural em São Paulo.
No meio da pista do Bela Vista, sente-se que dançar ainda é uma forma de existir em comunidade e celebrar a cultura latino-americana. Os clubes tradicionais do Recife, com suas histórias e tradições, permanecem como importantes espaços de memória, lazer e identidade cultural na cidade.
Fonte: g1.globo.com