A Perícia Oficial e Identificação Técnica de Mato Grosso (Politec-MT) anunciou a identificação de 42 pessoas que foram sepultadas como indigentes nos últimos 20 anos. A revelação foi possível graças ao projeto “Lembre de mim”, uma iniciativa em parceria com a empresa Griaule, que analisou 122 casos de indivíduos falecidos entre 2009 e 2025 sem identificação.
Implementado desde janeiro, o projeto já conseguiu dar nome a 34% das vítimas não identificadas nesse período de 16 anos na região de Cuiabá. A identificação biométrica se baseia na coleta de impressões digitais dos falecidos e no cruzamento dessas informações com bancos de dados digitalizados que contêm registros de milhões de pessoas.
O projeto se beneficia de informações fornecidas por órgãos como a Secretaria de Segurança Pública, que desde 2024 tem se dedicado a digitalizar o acervo civil do estado, convertendo impressões digitais e fotografias faciais de cidadãos para o formato digital.
A ausência de tecnologia biométrica no passado impedia a identificação de muitos desses indivíduos. Segundo dados do projeto, o Instituto Médico Legal (IML) de Cuiabá ainda possui cerca de 400 mil vítimas sem identificação.
A confirmação da identidade de Thiago Carlos, desaparecido desde agosto de 2012, trouxe alívio para sua avó, Tereza de Andrade, 72 anos, após 12 anos de espera. A família havia espalhado cartazes pela cidade na época do desaparecimento. Ao saber da identificação, Tereza expressou o impacto do tempo decorrido, mencionando que “não tem mais corpo”. Apesar da tristeza, ela considera a notícia como uma conclusão para o caso, encerrando a angústia da incerteza.
O sucesso do projeto “Lembre de mim” é atribuído à implementação do Sistema Automatizado de Identificação Biométrica (ABIS). A Griaule fornece ao Governo de Mato Grosso tecnologia de reconhecimento facial e biométrico, além de serviços de emissão de documentos e pesquisa papiloscópica.
Thiago Ribeiro, diretor de negócios da Griaule, explicou que o sistema biométrico conta com um cadastro de aproximadamente 4 milhões de pessoas, resultado da digitalização do acervo estadual. O sistema foi crucial para solucionar casos de pessoas desaparecidas e vítimas de acidentes. Ele detalhou que as biometrias são transformadas em modelos biométricos e pesquisadas na base de dados, possibilitando a determinação da identidade das pessoas.
O sistema biométrico utiliza criptografia avançada, inteligência artificial e algoritmos que processam informações em milissegundos. O tempo médio para a identificação das vítimas é de até 13 dias.
A coordenadora do projeto “Lembre de mim” e papiloscopista do IML, Simone Delgado, explicou que, ao receber um corpo não identificado, são coletadas as impressões digitais, mesmo em casos de corpos em avançado estado de decomposição. A base biométrica utilizada para a identificação é atualizada através dos documentos emitidos no estado, como o Registro Geral (RG).
Após a identificação do corpo, o próximo passo é rastrear os familiares, o que foi crucial para localizar a família de Rafael de Oliveira Flores, desaparecido desde 2014 e encontrado falecido em 2015. Sua meia irmã, Franciele Paula Flores, foi contatada graças aos seus dados atualizados no sistema, o que permitiu o cruzamento de informações genéticas e digitais.
Fonte: g1.globo.com