No coração do Sudoeste do Pará, em Parauapebas, a criatividade e a resiliência feminina estão redefinindo realidades. Mulheres empreendedoras têm encontrado na bioeconomia um caminho promissor para a geração de renda, a realização pessoal e a valorização cultural da região. Seja através da produção de mel, da arte em cerâmica ou da confecção de biojoias com sementes nativas, esses negócios demonstram a capacidade de conciliar a preservação ambiental, o resgate de saberes tradicionais e o empoderamento feminino.
Raízes na Natureza e Conquista da Independência Financeira
Inseridas em um cenário único, próximo à Floresta Nacional de Carajás e à maior mina de ferro a céu aberto do mundo, essas mulheres utilizam os recursos naturais locais como matéria-prima para suas criações. Essa conexão com o bioma não apenas alimenta seus empreendimentos, mas também fortalece sua autonomia financeira e estabelece um protagonismo crescente em suas comunidades.
Associação Filhas do Mel da Amazônia: Um Legado de Transformação
Um exemplo emblemático dessa força transformadora é a Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA). Com cerca de uma década de existência, a associação dedica-se à produção de mel a partir de duas frentes: a apicultura tradicional, com espécies conhecidas, e a meliponicultura, focada na criação de abelhas nativas sem ferrão. Essa última prática, em especial, envolve o resgate de colônias de áreas ameaçadas pela supressão vegetal, agregando um valor ecológico significativo ao trabalho.
Da Cozinha ao Empreendedorismo: Um Novo Horizonte
Ana Alice de Queiroz, uma das fundadoras da AFMA, compartilha a jornada de superação das associadas. "A gente só sabia passar e cozinhar", relata, relembrando a realidade anterior. A iniciativa de empreender abriu novas perspectivas, impulsionando muitas delas a retomarem os estudos, mesmo em idades mais avançadas. Ana Alice, por exemplo, voltou a estudar aos 51 anos, evidenciando a capacidade de reinvenção e o desejo de aprendizado que permeiam o grupo, muitas das quais eram analfabetas.
Gestão Feminina e Inspiração em Colmeias
Atualmente, a AFMA congrega 23 famílias, homens e mulheres, em uma estrutura colaborativa. Na prática, as mulheres assumem as responsabilidades estratégicas do negócio, como a gestão financeira, o envasamento, a rotulagem e a precificação dos produtos. "Os homens vão para o apiário, mas quem administra são as mulheres", explica Ana Alice, que já ocupou a presidência da associação. Essa organização, segundo ela, reflete a dinâmica eficiente das colmeias, onde a colaboração e a organização levam ao aumento da produção e ao sucesso coletivo.
O Crescimento do Empreendedorismo Feminino no Brasil
Os números corroboram a tendência de ascensão feminina no mundo dos negócios. Em 2025, mais de 2 milhões de pequenos negócios no Brasil foram iniciados por mulheres, representando quase 40% dos novos empreendimentos. Segundo o Sebrae, o número de mulheres empreendedoras no país saltou de 8,2 milhões em 2015 para 10,4 milhões em 2025, um crescimento de 27% em uma década, superando o avanço masculino. Fatores como a maior escolarização feminina, a busca por autonomia financeira e a facilidade de formalização via MEI impulsionam essa expansão.
Desafios e Potencial no Cenário Nacional e Estadual
Apesar do avanço, as mulheres ainda não atingem a paridade na liderança de novos pequenos negócios no país. No Pará, por exemplo, apenas 37,6% das empresas criadas em 2025 foram lideradas por mulheres. Contudo, mesmo diante de obstáculos, essas empreendedoras seguem conquistando espaços, com o apoio de iniciativas públicas e privadas. A mineradora Vale, por exemplo, tem impulsionado projetos de bioeconomia, e 30% dos 50 empreendimentos apoiados recentemente são liderados por mulheres, evidenciando o potencial transformador desses negócios que vão além da geração de renda, promovendo o empoderamento feminino.