Hanói, Vietnã — Em um movimento que redefine a dinâmica política vietnamita, To Lam, já secretário-geral do Partido Comunista, foi eleito por unanimidade como presidente do país para um mandato de cinco anos. A posse, ocorrida na terça-feira, 7, em Hanói, formaliza uma significativa consolidação de poder que rompe com a tradição de liderança compartilhada e estabelece um novo paradigma no Vietnã, ecoando modelos de governança observados na China e no vizinho Laos. A ascensão de Lam ao mais alto cargo do Estado já era amplamente antecipada desde sua reeleição como chefe do Partido Comunista em janeiro, sinalizando sua crescente influência e autoridade.
A Nova Era de Liderança Centralizada
A unificação dos cargos de secretário-geral do Partido Comunista e presidente do Vietnã nas mãos de To Lam representa uma ruptura substancial com o modelo tradicional de divisão de poder que caracterizou a política vietnamita por décadas. Anteriormente, era comum que diferentes indivíduos ocupassem esses postos-chave, promovendo uma governança mais distribuída. Esta concentração de autoridade confere a Lam um mandato significativamente mais forte e uma amplitude política sem precedentes desde a década de 1980, período em que o Vietnã iniciou suas reformas econômicas de transição de uma economia estatal para um modelo de mercado aberto.
Especialistas, como Nguyen Khac Giang, do ISEAS–Yusof Ishak Institute de Singapura, destacam tanto as oportunidades quanto os riscos inerentes a essa concentração. Por um lado, espera-se que a nova estrutura facilite uma tomada de decisões mais rápida, maior coerência política e uma melhor capacidade de implementar reformas difíceis em um momento crucial para o desenvolvimento do país. Por outro lado, há a preocupação de que o avanço da centralização do poder possa superar o ritmo das reformas institucionais, gerando desequilíbrios.
Prioridades e Ambições para o Mandato Presidencial
Após assumir o cargo, o presidente To Lam, de 69 anos, dirigiu-se à Assembleia Nacional para delinear suas principais prioridades. Ele enfatizou a manutenção da paz e da estabilidade como alicerces para um crescimento econômico rápido e sustentável. Além disso, destacou o compromisso com a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, garantindo que todos os vietnamitas possam usufruir dos benefícios do desenvolvimento nacional. Esta visão ambiciosa visa impulsionar o Vietnã além de seu modelo econômico atual, fortemente dependente da mão de obra e das exportações, buscando uma evolução para um crescimento impulsionado pelo setor privado e pela inovação.
Como chefe do partido, Lam já vinha focando no desempenho econômico e no crescimento do setor privado. O país tem como meta alcançar um crescimento econômico anual de 10% ou mais nos próximos cinco anos, consolidando a classe média e a indústria manufatureira que tiraram milhões da pobreza. Ele liderou a maior reforma burocrática do Vietnã desde os anos 80, realizando cortes de empregos, fusões de ministérios, redesenho de fronteiras provinciais e impulsionando grandes projetos de infraestrutura.
A Trajetória de To Lam e o Cenário Político
A ascensão de To Lam à presidência coroa uma notável trajetória de um policial de carreira. Ele progrediu consistentemente desde os serviços de segurança do Vietnã até o topo do sistema político. Sua jornada foi impulsionada, em parte, por uma extensa campanha anticorrupção iniciada por seu predecessor, Nguyen Phu Trong, e que ele supervisionou enquanto esteve à frente do Ministério da Segurança Pública. Essa experiência na aplicação da lei e na gestão de reformas administrativas complexas fornece uma base para a sua agenda futura, que visa a uma governança mais eficiente e a reformas estruturais.
Desafios Econômicos e a Complexa Geopolítica
Apesar das ambições de Lam, o Vietnã enfrenta desafios consideráveis. A economia global, impactada por choques energéticos, como o da guerra no Irã, adiciona complexidade à meta de transformar a visão de crescimento em realidade. Embora o Vietnã tenha registrado um crescimento anualizado de 7,8% nos primeiros três meses do ano — superando os 7,1% do ano anterior —, este desempenho ainda ficou aquém da meta de 9,1% e desacelerou em comparação com o final de 2025. Além disso, o presidente enfrentará obstáculos políticos para garantir a adesão às suas reformas propostas.
No cenário internacional, o Vietnã precisa manter sua abordagem pragmática e equilibrada. O país lida com a pressão dos Estados Unidos devido ao seu superávit comercial, enquanto simultaneamente gerencia as complexas relações com a China, seu maior parceiro comercial e rival na disputa pelo Mar da China Meridional. Manter essa delicada estratégia de equilíbrio na política externa, que tem sido benéfica para o Vietnã, tornar-se-á ainda mais desafiador em um contexto global cada vez mais turbulento, segundo analistas.
A liderança unificada de To Lam, portanto, inaugura um período de oportunidades para o Vietnã consolidar seu crescimento e implementar reformas audaciosas, mas também um período de incertezas, onde a capacidade de gerenciar riscos internos e externos será determinante para o sucesso de seu mandato.
Fonte: https://g1.globo.com