A capital paulista foi palco, neste domingo, da 6ª edição da Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado, um ato que reuniu centenas de pessoas em um percurso carregado de simbolismo. Organizada pelo Movimento Vozes do Silêncio, iniciativa do Instituto Vladimir Herzog e do Núcleo de Preservação da Memória Política, a manifestação teve como objetivo central não apenas recordar as atrocidades da ditadura militar, mas também alertar para a persistência da violência estatal no cenário democrático atual do Brasil.
O Percurso da Memória e Resistência
A concentração dos participantes teve início às 16h em frente ao antigo prédio do DOI-Codi, na rua Tutóia, um local que evoca imediatamente o período sombrio da ditadura brasileira (1964-1985), servindo como um dos mais notórios centros de repressão e tortura. Dali, o cortejo seguiu pelas ruas da zona sul, em um trajeto que culminou no Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, situado no Parque Ibirapuera. Mesmo sob a escolta da Polícia Militar, cujos agentes circulavam entre os manifestantes, o ato manteve seu caráter pacífico e sua mensagem de denúncia, reunindo familiares de vítimas, movimentos de direitos humanos e mais de 30 organizações da sociedade civil.
Conectando o Passado ao Presente: A Urgência da Discussão
Com o lema “aprender com o passado para construir o futuro”, a caminhada ressaltou a importância de enxergar a ditadura militar não como um evento isolado no tempo, mas como um período cujos impactos ainda reverberam na sociedade contemporânea. Lorrane Rodrigues, coordenadora da área de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog, enfatizou que é crucial romper com a percepção de que a ditadura é um tema estanque, que não necessita de discussão contínua. Segundo ela, a democracia brasileira, em sua configuração atual, ainda não é suficiente nem igualitária para uma parcela significativa da população, tornando imperativo um fortalecimento genuíno das suas bases.
Rodrigues também apontou para as 49 recomendações da Comissão Nacional da Verdade ao Estado brasileiro, que, desde seu lançamento, foram cumpridas de forma parcial ou em pequena medida. A análise bienal do Instituto Vladimir Herzog demonstra que, embora haja alguns avanços, o progresso é lento diante da magnitude do que as recomendações propõem para a consolidação da memória, verdade e justiça no país.
O Legado da Impunidade e a Defesa Ativa da Democracia
Rogério Sotilli, diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, reforçou, em nota, que a Caminhada do Silêncio nasceu como uma resposta vigorosa ao autoritarismo e às persistentes tentativas de apagamento da história. Ele destacou que a ditadura militar legou ao Brasil uma herança de impunidade, um fator que, infelizmente, se reflete na violência de Estado que ainda hoje afeta a nação. Sotilli ressaltou que, em tempos de ataques graves contra a democracia, a presença nas ruas é um sinal inequívoco da força e da vigilância da sociedade civil, que não delega apenas às altas instituições a defesa do Estado democrático de Direito.
Novos Horizontes Jurídicos e a Força da Mobilização Coletiva
A edição deste ano da Caminhada ganhou um novo contorno ao destacar a possibilidade, defendida pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar a aplicação da Lei da Anistia em casos que envolvem crimes permanentes, como a ocultação de cadáver. Essa perspectiva jurídica abre um caminho potencial para a responsabilização de atos cometidos durante a ditadura que, por sua natureza, se estendem no tempo, oferecendo uma nova esperança para familiares e movimentos que buscam justiça. A ampla participação de mais de 30 organizações da sociedade civil e movimentos sociais sublinhou a articulação e a força coletiva em torno dessas pautas.
O Manifesto: Um Grito Silencioso por Permanência
O ponto culminante do evento foi a leitura do manifesto da caminhada, uma declaração poderosa que resumiu o espírito da manifestação. "Nosso silêncio é a presença viva, é memória que resiste, é a voz que ecoa nos passos de cada pessoa que se recusa a esquecer", dizia o texto, que partia de um lugar de dor – o DOI-Codi – para um monumento de lembrança. O manifesto afirmou categoricamente que os mortos e desaparecidos não estão no passado, mas são "permanência", e que "cada vítima de violência do Estado é permanência". A mensagem final alertou que, embora a democracia tenha retornado, a ameaça autoritária "não desapareceu, ele se transformou", reiterando a necessidade contínua de resistência e vigilância.
A 6ª Caminhada do Silêncio em São Paulo reafirmou-se, assim, como um evento crucial para a manutenção da memória histórica, a denúncia das continuidades da violência de Estado e a mobilização em prol de uma democracia mais justa e equitativa, onde a impunidade não encontre mais espaço.