Santarém, no oeste do Pará, foi palco de uma vibrante celebração da cultura afro-brasileira e afroamazônida com a primeira edição do Festival Mvúka Tapajós, realizado no final de semana dos dias 28 e 29 de outubro. O evento, que entrelaça arte, memória e território, consolidou-se como um marco para o fortalecimento de identidades e a valorização dos saberes tradicionais na região, propondo uma profunda reflexão sobre o pertencimento coletivo e a potência das manifestações negras.
Mvúka Tapajós: Um Encontro de Reconexão e Legitimidade
A concepção do Festival Mvúka Tapajós vai além de um simples evento cultural. Aprovado pela Lei Aldir Blanc, na categoria de festivais, ele nasceu com a missão de criar um espaço vital para a afirmação de identidades, o resgate de conhecimentos ancestrais e a promoção de um senso de comunidade. A iniciativa busca dar visibilidade e prestígio a uma cultura rica e muitas vezes marginalizada, reafirmando sua importância intrínseca para a formação social e cultural da Amazônia.
A Força do Nome: Resignificando o Conceito de 'Mvúka'
O nome 'Mvúka', de origem banto na língua kikongo, originalmente designa 'aglomeração' em contextos de festa e celebração coletiva. No entanto, no Brasil, o termo 'muvuca' acabou sendo associado pejorativamente à desordem. O festival propôs uma audaciosa ressignificação dessa palavra, reivindicando os ajuntamentos negros como espaços legítimos de intensa produção cultural, sociabilidade e, acima de tudo, resistência. Esta proposta contesta processos históricos que criminalizaram práticas de encontro, como o batuque e as festas populares, que agora são celebradas como expressões autênticas de identidade e poder coletivo.
Andressa Sousa, coordenadora do festival, enfatizou que, no contexto amazônico, a mvúka transcende a mera celebração, tornando-se um 'gesto de reconexão com o território'. Segundo ela, o evento reúne 'corpos, ritmos, saberes e experiências afroamazônidas', convidando à reocupação de espaços com arte, memória e negritude. Esta visão alinha a celebração à resistência, reforçando que festejar também é resistir, e vice-versa. A organização do festival, composta majoritariamente por pessoas negras e racializadas, com forte protagonismo feminino, reflete essa perspectiva de empoderamento e visibilidade.
Programação Imersiva: Saberes, Danças e Sabores Afroamazônidas
Durante os dois dias de festival, o público teve acesso a uma programação diversificada, pensada para engajar e educar. O cronograma incluiu ações formativas, apresentações musicais e uma feira criativa e gastronômica, todas voltadas para a valorização de iniciativas empreendedoras ligadas à cultura e aos saberes tradicionais da Amazônia afrodescendente.
Oficinas de Imersão e Ritmo no Sábado
O sábado foi dedicado a oficinas gratuitas, com vagas limitadas, oferecendo experiências práticas e imersivas. Dentre elas, destacaram-se a oficina de <b>Dança de Carimbó</b>, ministrada por Alice Matos do Coletivo Batuque Santareno, a oficina de <b>Samba de Roda</b> com Amanda Silvino, e a de <b>Percussão para o Carimbó</b>, conduzida por Amaury Gonçalves e Maurício Sousa, também do Batuque Santareno. As atividades culminaram em uma vibrante <b>Roda de Batuque</b> e uma apresentação do Coletivo Batuque Santareno, transformando o Porão Centro Cultural em um espaço de pura energia e tradição.
Feira Criativa e Celebração no Domingo
O domingo, por sua vez, levou a festa para o Quintal Sapucaia, com a realização de uma <b>Feira Criativa e Gastronômica</b> em parceria com a Kitanda Preta. O espaço reuniu dez empreendedoras locais, exibindo uma rica variedade de comidas típicas, produtos autorais e iniciativas da economia criativa afroamazônida. A tarde foi animada por diversas apresentações culturais, incluindo os ritmos contagiantes do <b>Sambatuque</b>, a banda <b>Caldo de Piranha</b> e outros sons que celebram a diversidade musical da Amazônia, culminando em um encerramento festivo.
Legado e Perspectivas Futuras
O Festival Mvúka Tapajós transcendeu a proposta de um mero evento, consolidando-se como um movimento simbólico e político de afirmação. Ele demonstrou que as 'muvucas', historicamente marginalizadas, são, na verdade, expressões legítimas de uma cultura vibrante, de uma identidade resiliente e de uma potência coletiva inegável. Ao transformar o estigma em celebração, o festival não apenas honrou as raízes afroamazônidas de Santarém, mas também abriu caminhos para futuras edições, prometendo continuar a inspirar e empoderar comunidades através da arte, da memória e da união.
Fonte: https://g1.globo.com