© Ralf Vetterle/Pixabay
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O Acordo de Paris, o mais significativo tratado internacional voltado para a mitigação da crise climática, completa uma década de existência nesta sexta-feira. Adotado durante a Conferência das Partes (COP21) em 2015, este pacto global foi aclamado como um divisor de águas na governança ambiental mundial. Contudo, a Organização das Nações Unidas (ONU) emite um alerta crucial: o planeta permanece perigosamente distante de atingir a meta central de limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius (ºC). Este limiar é considerado crítico para evitar impactos climáticos severos e, em muitos casos, irreversíveis. Cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reiteram a urgência, indicando que as emissões globais de gases de efeito estufa precisam ser reduzidas em impressionantes 43% até 2030 para manter essa ambição ao alcance. A pressão internacional sobre os países signatários intensifica-se para que reforcem suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e acelerem a transição indispensável para economias de baixo carbono, marcando um período de reflexão e necessidade de ação ampliada.

Uma década de progresso e persistentes desafios
Uma década após a sua adoção, o Acordo de Paris é analisado sob uma lente dupla: a de um marco que impulsionou a ação climática e a de um compromisso cujas metas ainda parecem elusivas. Este tratado seminal estabeleceu, pela primeira vez na história, um compromisso global vinculativo para enfrentar a crise climática. A estrutura do acordo opera em ciclos de cinco anos, onde cada nação apresenta ou atualiza seus planos climáticos, as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). Estes documentos não se limitam à redução de emissões, mas também detalham estratégias de adaptação e diretrizes de longo prazo para guiar economias inteiras rumo à neutralidade de carbono.

O impacto inicial do tratado e a visão da ONU
O secretário-geral da ONU, António Guterres, oferece uma perspectiva complexa sobre a situação atual. Ele afirma categoricamente que, graças ao Acordo de Paris, o mundo não está mais em rota de colisão para um aquecimento superior a 4°C, um cenário de consequências catastróficas. Em vez disso, a trajetória global atual aponta para um aumento de aproximadamente 2,5°C. Embora esta seja uma melhoria significativa, Guterres enfatiza a urgência, declarando que a ação climática precisa ir além e ser mais rápida. Ele aponta que os últimos dez anos foram os mais quentes já registrados, com tragédias humanas, destruição ecológica e crises econômicas em ascensão. Para o secretário-geral, 2026 deve ser o início de uma “nova década de implementação”, exigindo um “plano de aceleração que preencha a lacuna entre ambição, adaptação e financiamento”, uma união que ele observou durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém.

A perspectiva de líderes e negociadores
A visão de que o Acordo de Paris foi um catalisador crucial é compartilhada por figuras que estiveram no cerne de sua criação. O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, argumenta que o tratado foi fundamental para “destravar” a ação climática em um momento crítico, quando o progresso estava estagnado. Ele reitera que, se há uma década a ciência indicava um aumento de cerca de 4°C na temperatura média global, os esforços pós-Paris trouxeram essa projeção para 2,5°C. No entanto, o desafio de evitar ultrapassar 1,5°C ainda persiste, indicando que “há muito a ser feito”.

Em contraste, Christiana Figueres, ex-secretária executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) em 2015, expressa um certo pessimismo quanto à possibilidade de alcançar plenamente as metas originais. Para ela, já é “tarde demais” para “resolver a mudança climática” por completo. Contudo, ela ressalta a importância de não nos “condenar aos piores impactos” e defende a aceleração do ritmo, com implementação responsável da redução de emissões e a regeneração de ecossistemas naturais. A essência, para Figueres, reside em garantir um futuro habitável para as próximas gerações, em consonância com os princípios do Acordo de Paris.

Mecanismos e pilares do compromisso global
O Acordo de Paris é mais do que uma declaração de intenções; é um sistema robusto de compromissos e mecanismos desenhado para guiar a ação climática global. Desde sua entrada em vigor em 2016, ele mobilizou 195 Estados Partes em um esforço colaborativo sem precedentes.

Estrutura e obrigações dos países signatários
No coração do Acordo de Paris estão as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). Estes planos quinquenais são a espinha dorsal do tratado, exigindo que cada país apresente e atualize regularmente suas metas de redução de emissões de gases de efeito estufa. As NDCs são progressivamente mais ambiciosas, visando a uma trajetória de descarbonização que leve à neutralidade de carbono a longo prazo. Além das metas de mitigação, os países são encorajados a detalhar estratégias de adaptação aos impactos inevitáveis das mudanças climáticas, bem como a desenvolver políticas que orientem suas economias para um futuro mais sustentável e resiliente. O caráter voluntário das metas, combinado com a revisão periódica, busca fomentar a apropriação nacional e a elevação da ambição ao longo do tempo.

Financiamento climático e transparência
A cooperação internacional é um pilar central do Acordo de Paris, reconhecendo que a luta contra a crise climática exige um esforço conjunto e equitativo. Um aspecto fundamental dessa cooperação é o apoio aos países em desenvolvimento, que são historicamente menos responsáveis pelas emissões acumuladas, mas paradoxalmente os mais vulneráveis aos efeitos adversos das mudanças climáticas. O tratado estabelece a responsabilidade dos países desenvolvidos em liderar o financiamento climático, bem como em promover a transferência de tecnologia e o desenvolvimento de capacidades para auxiliar as nações em desenvolvimento em suas transições.

Para assegurar a responsabilização e o progresso coletivo, o Acordo introduziu o Quadro de Transparência Reforçado. Este mecanismo, que se tornou obrigatório a partir de 2024, exige que todas as Partes reportem de forma detalhada suas ações climáticas, os avanços alcançados e os apoios financeiros e tecnológicos prestados e recebidos. Os dados coletados através deste quadro alimentam o Balanço Global, um instrumento quinquenal crucial que avalia o progresso coletivo do mundo em direção às metas de longo prazo do Acordo. O primeiro Balanço Global foi concluído na COP28, sublinhando a distância que ainda precisa ser percorrida e a necessidade de mais ambição.

O futuro da ação climática e o apelo por ambição
À medida que o Acordo de Paris completa sua primeira década, o balanço revela uma complexa tapeçaria de avanços e lacunas críticas. Embora o tratado tenha redirecionado a trajetória global de aquecimento de um cenário catastrófico para um ainda desafiador, a meta vital de 1,5°C permanece em risco iminente. As vozes da ONU, de ex-negociadores e líderes climáticos convergem na necessidade urgente de escalar a ambição e a velocidade das ações. A iminente COP30 em Belém, onde se espera que os países reforcem seus compromissos, representa uma oportunidade crucial para que a comunidade internacional demonstre a vontade política de implementar integralmente o Acordo. O chamado é claro: é preciso ir além das promessas e transformar planos em ações concretas e financiadas, assegurando um futuro sustentável para as gerações vindouras e honrando o espírito de cooperação que deu origem a este tratado histórico.

Perguntas frequentes sobre o Acordo de Paris

Qual é o principal objetivo do Acordo de Paris?
O principal objetivo do Acordo de Paris é limitar o aumento da temperatura média global a bem menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais, e envidar esforços para limitar o aumento a 1,5°C, reconhecendo que isso reduziria significativamente os riscos e impactos das mudanças climáticas.

Quantos países são signatários do Acordo de Paris?
O Acordo de Paris foi adotado por 195 Estados Partes e entrou em vigor em 4 de novembro de 2016. Virtualmente todas as nações do mundo fazem parte deste compromisso global.

O que são as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs)?
As Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) são os planos de ação climática que cada país signatário do Acordo de Paris deve elaborar e atualizar a cada cinco anos. Elas estabelecem as metas de cada nação para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e para se adaptar aos impactos das mudanças climáticas.

A meta de 1,5°C ainda é considerada alcançável?
Embora os esforços globais tenham evitado cenários de aquecimento acima de 4°C, a meta de 1,5°C é cada vez mais desafiadora. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) alerta que as emissões precisam cair 43% até 2030 para manter essa meta ao alcance, o que exigiria uma aceleração drástica das ações climáticas atuais.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br