© Fernando Frazão/Agência Brasil
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Especialistas em segurança pública e sociólogos têm expressado preocupação com a retórica adotada por governadores brasileiros em relação ao combate ao crime organizado, especialmente após a operação policial que resultou em 121 mortes no Rio de Janeiro. Paralelamente às operações policiais, alguns governadores, alinhados com a administração fluminense, propuseram o “Consórcio da Paz”, um projeto de integração para combater o crime organizado no país.

O sociólogo Ignacio Cano, professor da UERJ, questiona o uso do termo “Consórcio da Paz”, argumentando que ele inverte a realidade da operação que resultou em tantas mortes. “Os governadores erraram no nome. Deveria se chamar Consórcio da Morte, porque é isso que eles estão propondo. Certamente não é a paz”, critica Cano, acrescentando que essa retórica pode ser prejudicial à imagem dos governos, lembrando-os constantemente da violência associada às suas políticas.

O “Consórcio da Paz” é composto por sete governadores de estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal.

Outro ponto de debate é o uso do termo “narcoterrorismo” para descrever facções criminosas, adotado por alguns governadores. Especialistas como a antropóloga e cientista política Jacqueline Muniz, da UFF, criticam essa abordagem, argumentando que ela mascara incompetências e oportunismos políticos. Segundo Muniz, classificar grupos criminosos como “narcoterroristas” pode levar a um aumento de poder e orçamento sem a devida responsabilização.

Cano concorda, afirmando que o termo é conceitualmente equivocado, pois o terrorismo está associado a objetivos políticos, enquanto o narcotráfico busca o lucro. A legislação brasileira classifica facções de tráfico de drogas como organizações criminosas, postura adotada pelo governo federal e pelo ministro da Justiça e Segurança Pública.

Há uma tentativa de alterar essa classificação por meio do Projeto de Lei 724/25, que busca ampliar o conceito de terrorismo para incluir o tráfico de drogas. O projeto ainda precisa ser analisado e votado no Congresso Nacional.

A pressão internacional de políticos de direita, especialmente de governos como os da Argentina e do Paraguai, para classificar facções criminosas brasileiras como terroristas também é um fator a ser considerado. Especialistas entendem que a insistência de governadores brasileiros no termo “narcoterrorismo” é uma forma de alinhamento político com essas forças externas, transferindo o debate do campo policial para o geopolítico. Para eles, a adoção do termo pode fragilizar a democracia e aumentar o risco de interferências internacionais.

O uso da linguagem de “guerra às drogas” também é criticado, pois valida ações que impactam negativamente territórios vulneráveis. Segundo Jonas Pacheco, coordenador de pesquisa da Rede de Observatórios da Segurança, essa abordagem tende a criminalizar a população pobre e negra que vive em áreas de risco.

Especialistas reforçam que a segurança pública deve gerar segurança e não morte, respeitando as normativas legais e garantindo a preservação da vida. A ação policial sem controle e fiscalização pode colocar em risco toda a sociedade.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br