O fascínio pelos sons e cores da natureza, que muitas vezes passa despercebido em nosso dia a dia, pode se transformar em uma paixão que redefine nossa conexão com o meio ambiente. É o que descobriu Flávio Rogério da Silva, técnico em eletrônica de 49 anos e morador de Araraquara (SP). Ele faz parte de um crescente número de brasileiros que encontraram na observação de aves, o chamado birdwatching, uma forma de unir qualidade de vida, paciência e a constante emoção da descoberta.
“Desde criança sempre fui um entusiasta da natureza, mas a observação de aves como faço hoje iniciou há uns três anos, olhando as aves que frequentavam meu quintal”, relata Flávio. “Percebi como esse hábito podia unir minha busca por qualidade de vida com momentos de tranquilidade e contemplação.”
O que começou como um passatempo casual logo evoluiu para uma atividade mais séria, que o levou a explorar os parques e matas da região. Para ele, a prática tem uma “mágica”: a profunda conexão com o ambiente e o exercício da atenção plena. “É como se cada ave contasse uma história única. Para mim, esse hobby é uma forma de treinar o olhar clínico, a paciência e a capacidade de observar com profundidade”, explica.
Essa busca por uma ligação mais íntima com a natureza reflete uma tendência global. O mercado de turismo de observação de aves movimentou cerca de US$ 60 bilhões em 2023 e a projeção é que ultrapasse os US$ 107 bilhões até 2033, de acordo com um levantamento. No Brasil, o interesse pela prática também cresceu significativamente, especialmente durante e após a pandemia.
A região central do estado de São Paulo, onde se encontram Araraquara e São Carlos (SP), é um local privilegiado para a observação de aves. Araraquara, conhecida por sua vasta arborização, possui 356 espécies de aves registradas, o que representa aproximadamente 18% de toda a avifauna brasileira e 43% do estado de São Paulo. Apesar de não possuir espécies exclusivas, a cidade abriga uma grande diversidade de aves típicas do Cerrado e da transição com a Mata Atlântica.
Um levantamento da avifauna de São Carlos, atualizado em setembro de 2024, lista centenas de espécies, incluindo algumas ameaçadas de extinção, reforçando a importância da região para a conservação. Entre as aves vulneráveis encontradas na área estão o gavião-do-banhado, o pato-de-crista, o narcejão e a arara-canindé. A lista inclui ainda espécies classificadas como “Criticamente em Perigo”, como o mutum-de-penacho, a sanã-de-cara-ruiva e a cigarra-do-campo, além de outras em perigo, como o caboclinho-coroado e a bandoleta.
Para Flávio, cada nova espécie avistada é uma conquista. Ele relata com entusiasmo a emoção de ter registrado a jacurutu, a maior coruja das Américas, em Araraquara, e também de avistar um gavião-gato perto do Rio Jacaré-Guaçu.
A observação de aves vai além do lazer, sendo uma ferramenta para a “ciência cidadã”. Plataformas online permitem que observadores amadores compartilhem seus registros, fornecendo dados para que cientistas monitorem populações de aves, rotas migratórias e a saúde dos ecossistemas. Além da contribuição científica, a prática traz benefícios para a saúde mental, reduzindo o estresse e a ansiedade, promovendo a atenção plena e estimulando a paciência e a concentração.
Para quem deseja iniciar no birdwatching, não é necessário investir em equipamentos caros. Flávio começou com uma câmera simples e só depois investiu em um equipamento mais robusto. Ele indica alguns pontos de observação em Araraquara, como o Parque Natural do Basalto, o Parque Pinheirinho e o Parque Botânico, e recomenda procurar o Clube de Observadores de Aves de Araraquara (COA-Araraquara).
Embora a observação de aves não seja formalmente regulamentada, existem normas e um código de ética que visam proteger a vida selvagem. O princípio fundamental é priorizar o bem-estar das aves e a preservação de seus habitats, não perturbando ninhos, evitando o uso excessivo de “playback” e respeitando a propriedade privada e as regras dos parques. A segurança também é importante, planejando a saída, conhecendo o local e, se possível, indo acompanhado.
Fonte: g1.globo.com