Os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro foram oficialmente declarados Patrimônio Cultural do Estado. A medida foi formalizada por um decreto assinado pelo governador Cláudio Castro, publicado na última sexta-feira, dia 19, no Diário Oficial. Esta importante decisão reconhece o espetáculo dos desfiles das escolas de samba como um símbolo fundamental da identidade cultural fluminense. Além de reforçar o Carnaval como uma política robusta de valorização cultural, a iniciativa visa impulsionar o desenvolvimento econômico e solidificar a imagem do Rio de Janeiro globalmente. Paralelamente, os desfiles também estão em processo de solicitação para reconhecimento como Patrimônio Cultural do Brasil, no âmbito federal.
O reconhecimento estadual e seu impacto
Um marco para a identidade fluminense
A chancela governamental eleva os desfiles das escolas de samba a um patamar de proteção e valorização inéditos no cenário estadual. O decreto do governo fluminense garante que essa manifestação cultural passe a integrar o conjunto oficial de bens protegidos pelo estado. Essa inclusão oferece um respaldo institucional robusto e sem precedentes para as escolas de samba, para os milhares de profissionais envolvidos e para toda a vasta cadeia produtiva que se mobiliza na realização desse grandioso espetáculo.
O reconhecimento como Patrimônio Cultural do Estado não é apenas simbólico; ele viabiliza uma série de ações concretas de fomento, preservação da memória e apoio continuado às escolas de samba. Amplia, significativamente, a base legal para a destinação de investimentos públicos, o estabelecimento de parcerias institucionais estratégicas e a implementação de políticas eficazes de valorização profissional. Adicionalmente, a medida contribui de forma crucial para a salvaguarda dos saberes tradicionais intrínsecos ao samba, desde a confecção das fantasias e alegorias até a elaboração dos enredos e a cadência dos sambas-enredo. Com isso, o Carnaval carioca é consolidado como um ativo estratégico para o estado, tanto do ponto de vista cultural quanto econômico, projetando a imagem do Rio de Janeiro para o mundo.
A voz dos sambistas: do preconceito ao respeito
A transformação dos desfiles em Patrimônio Cultural do Estado foi recebida com grande entusiasmo pela comunidade do samba, especialmente pelos sambistas mais experientes. Paulinho Mocidade, renomado intérprete com múltiplos títulos no Carnaval, considerou a medida do governo fluminense como “muito acertada”. Em sua análise, ele destacou a abrangência do Carnaval do Rio, que “vai daqui para todo o Brasil, e, do Brasil, para todo o mundo”. Para Paulinho, o maior benefício dessa valorização é o resgate e o aprimoramento do respeito que o sambista adquire.
Ele rememorou um período sombrio da história do samba, entre as décadas de 1920 e 1950, quando o sambista era frequentemente marginalizado e estigmatizado. “O preconceito era gigantesco. O cara entrava em cana. A situação era delicadíssima”, recordou Paulinho, ilustrando a dura realidade enfrentada por aqueles que dedicavam suas vidas à arte do samba. Hoje, a realidade é outra, e o sambista se tornou uma figura de referência e orgulho cultural. A medida é, portanto, um reconhecimento histórico que coroa décadas de luta e resiliência, aplaudida por quem vive e faz o Carnaval acontecer.
O caminho para o reconhecimento federal
Iphan e o processo de chancela nacional
Paralelamente ao reconhecimento estadual, os desfiles das escolas de samba da Marquês de Sapucaí também estão buscando a chancela federal, como Patrimônio Cultural do Brasil. Em 29 de agosto, um pedido formal de registro foi entregue ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O documento foi apresentado pela diretora cultural da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), Evelyn Bastos, ao presidente do Iphan, Leandro Grass, e ao diretor do Departamento de Patrimônio Imaterial do instituto (DPI), Deyvesson Gusmão.
O Iphan esclareceu que, embora a política de preservação cultural em nível federal seja uma referência para diversos estados e municípios, cada esfera de governança possui instrumentos e processos próprios para o reconhecimento patrimonial em suas localidades. Isso significa que o reconhecimento estadual não se confunde com o nacional, que confere o título de Patrimônio Cultural do Brasil. Na esfera federal, o pedido de registro representa o primeiro estágio de um processo complexo e multifacetado, que inclui análises técnicas rigorosas e a realização de pesquisas etnográficas aprofundadas. Primeiramente, a documentação é submetida a uma análise técnica detalhada. Em seguida, a Câmara Setorial avalia a pertinência da solicitação. Após a instrução técnica completa, o processo é encaminhado para a apreciação do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, responsável pela avaliação final e decisão sobre o reconhecimento. O Iphan destacou que o pedido se alinha com a importância cultural e histórica do Carnaval carioca para o Brasil, já reconhecida em outras ocasiões. O Sambódromo, projetado por Oscar Niemeyer, já é tombado em nível federal desde 2021, e as Matrizes do Samba no Rio de Janeiro (partido alto, samba de terreiro e samba enredo) são Patrimônio Cultural do Brasil desde 2007, reforçando a relevância histórica do gênero.
Potencial econômico e social do carnaval carioca
Além de sua dimensão cultural, o Carnaval do Rio de Janeiro é um motor econômico de proporções gigantescas. Para o ano de 2025, o governo fluminense destinou um investimento de R$ 90 milhões para a realização das festividades. Esse aporte substancial é esperado para gerar um impacto positivo estimado em R$ 6,5 bilhões na economia do estado durante o período carnavalesco. Os benefícios se estendem à geração de empregos, com cerca de 70 mil vagas criadas diretamente e indiretamente no setor, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego.
Adicionalmente, o dinamismo econômico do Carnaval impulsionou a criação de mais de 2,1 mil novos empreendimentos com ligação direta ou indireta às festas de Momo. O setor de serviços e turismo, em particular, experimentou um crescimento notável. As vagas temporárias para o Carnaval cresceram 8,6% no estado em 2025, conforme informações da Divisão de Economia e Inovação da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Esses números robustos sublinham a importância econômica do Carnaval, que, ao lado de sua riqueza cultural, o estabelece como um ativo inestimável para o desenvolvimento e a projeção do Rio de Janeiro.
Um futuro de valorização e prosperidade
A formalização dos desfiles das escolas de samba como Patrimônio Cultural do Estado do Rio de Janeiro representa um passo fundamental na proteção e valorização de uma das maiores manifestações culturais do Brasil e do mundo. Este reconhecimento estadual, somado aos esforços em andamento para a chancela federal, garante que a grandiosidade e a tradição do Carnaval carioca recebam o respaldo institucional necessário para sua perpetuação. A medida não apenas salvaguarda os saberes e fazeres do samba, mas também reforça seu papel vital como propulsor econômico e símbolo da identidade fluminense. Com investimentos crescentes e o reconhecimento de sua importância histórica e social, o futuro do Carnaval do Rio se desenha com promessas de ainda mais prosperidade e projeção global, assegurando que o brilho da Marquês de Sapucaí continue a encantar gerações.
Perguntas frequentes
1. Qual a data do decreto que transformou os desfiles em Patrimônio Cultural do Estado?
O decreto foi assinado pelo governador Cláudio Castro e publicado no Diário Oficial na sexta-feira, dia 19.
2. Qual a diferença entre Patrimônio Cultural do Estado e Patrimônio Cultural do Brasil?
O Patrimônio Cultural do Estado é um reconhecimento feito pelo governo estadual, conferindo proteção e valorização dentro do território fluminense. O Patrimônio Cultural do Brasil, por sua vez, é um reconhecimento em âmbito federal concedido pelo Iphan, que abrange todo o território nacional e segue um processo distinto e independente.
3. Quais são os benefícios do reconhecimento como Patrimônio Cultural do Estado para as escolas de samba?
O reconhecimento assegura respaldo institucional, viabiliza ações de fomento e apoio continuado, amplia a base legal para investimentos públicos e parcerias, contribui para a preservação da memória e dos saberes tradicionais do samba, e consolida o Carnaval como um ativo estratégico cultural e econômico.
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