Nos últimos dez anos, o Brasil viveu um cenário alarmante de cassações de mandatos políticos voltados para mulheres. Entre 2015 e 2025, 71 mulheres em cargos eletivos enfrentaram essa realidade em 19 estados do país. Os dados, divulgados pelo Instituto E Se Fosse Você, foram apresentados em um evento realizado na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), sob o título "Mulheres Ameaçadas no Brasil: dos feminicídios às cassações de mandatos".
Crescimento das Cassações a Partir de 2019
O levantamento indica que, a partir de 2019, com o início do governo de Jair Bolsonaro, houve um aumento significativo nos casos de cassação. Em contraste, o ano de 2015 não registrou nenhum incidente desse tipo. O cenário começou a mudar em 2016, com o impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, um marco que simbolizou a crescente hostilidade política enfrentada por mulheres no Brasil.
Perfil das Vítimas e Agressores
A pesquisa revela que as vereadoras são as mais afetadas por esse tipo de perseguição, representando 73% das mulheres atacadas em cargos eletivos. Em contrapartida, apenas 20% dos casos envolvem parlamentares estaduais e federais. Essa disparidade evidencia a vulnerabilidade das mulheres em posições locais, onde o poder político é exercido de maneira mais direta sobre a comunidade.
Motivos por Trás das Cassações
O relatório destaca que as razões por trás das cassações estão ligadas à identidade de gênero, ao poder que essas mulheres exercem e à filiação partidária. O fenômeno do backlash, uma reação organizada contra os avanços das mulheres, é identificado como um fator central nesse contexto. Aproximadamente 40% das mulheres que tiveram seus mandatos questionados pertencem ao Partido dos Trabalhadores (PT) ou ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), enquanto 70% dos agressores provêm de partidos conservadores como o Partido Liberal (PL) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB).
Consequências e Reflexões
Os especialistas que analisaram os dados sublinham que essa violência não se restringe apenas ao gênero, mas também reflete um padrão ideológico que ataca mulheres com posições políticas progressistas. Essa hostilidade é frequentemente organizada por bancadas conservadoras, que buscam manter hegemonias políticas. Além disso, o PT aparece tanto como partido de várias vítimas quanto como um agente em conflitos internos, onde disputas de poder podem levar a tentativas de cassação de mandatos de correligionárias.
Conclusão
A análise das cassações de mandatos políticos de mulheres no Brasil revela um quadro preocupante de violência institucional e desigualdade de gênero. A crescente perseguição a essas representantes reflete não apenas a luta pelo poder, mas também a resistência a mudanças sociais e políticas. O futuro da representação feminina na política brasileira depende de um esforço conjunto para combater essa hostilidade e garantir um ambiente mais seguro e justo para todas as mulheres que desejam participar ativamente da vida política do país.