© REUTERS/Claudia Morales/arquivo/Proibida reprodução
Compartilhe essa matéria

Na última quarta-feira (27), o presidente boliviano Rodrigo Paz anunciou a revogação da Lei 1341, que restringia significativamente os poderes do chefe do Executivo para declarar estado de exceção. Essa medida, que permite ao governo assumir poderes excepcionais e suspender temporariamente certas normas do Estado de direito, foi aprovada pela Câmara dos Deputados em uma sessão online realizada na noite anterior.

Contexto dos Protestos e Bloqueios

O governo de Rodrigo Paz enfrenta um período turbulento, com quase um mês de intensas mobilizações populares exigindo sua renúncia. As manifestações são compostas por uma ampla gama de grupos, incluindo camponeses, indígenas, professores e trabalhadores de diversas categorias. Essas mobilizações resultaram em bloqueios de rodovias, causando desabastecimento de alimentos, combustíveis e medicamentos em várias regiões do país.

Pressões Políticas e Oposição

A revogação da lei foi impulsionada por pressões de setores da direita e de empresários que argumentam que o governo precisa agir com mais rigor para desobstruir as rodovias. O professor de ciência política Clayton Cunha Filho, da Universidade Federal do Ceará, enfatizou que a revogação da Lei 1341 amplia as opções do governo para o uso do estado de exceção, que, segundo ele, foi anteriormente controlado pelo Legislativo.

Justificativas para a Revogação

O deputado Roberto Júlio Castro Salazar, responsável pelo projeto de revogação, argumentou que a legislação anterior havia se desvirtuado e que a Constituição boliviana já fornece diretrizes suficientes para a aplicação do estado de exceção. Ele defendeu que a lei foi criada como uma ferramenta para tentar desestabilizar o governo de Jeanine Áñez, que assumiu o poder após a saída de Evo Morales em 2019.

Histórico da Lei 1341

A Lei 1341 foi aprovada em 2020, durante um período em que o Movimento ao Socialismo (MAS), partido liderado por Evo Morales, detinha a maioria no parlamento. A legislação surgiu em um contexto de crise política, onde Morales foi forçado a renunciar após protestos e alegações de fraude nas eleições. A pressão dos militares naquele momento levou à sua saída e à ascensão de Jeanine Áñez, que posteriormente enfrentou sua própria série de críticas e protestos.

Implicações Constitucionais

Salazar também ressaltou que a Constituição da Bolívia, em seu artigo 137, já prevê a utilização do estado de exceção em situações de ameaça à segurança nacional ou agitação interna, sem necessidade de uma legislação adicional. Ele destacou que a declaração de estado de emergência precisa ser ratificada pelo Parlamento em até 72 horas, assegurando um controle democrático sobre o uso desses poderes.

Conclusão

A revogação da Lei 1341 representa uma mudança significativa na dinâmica política da Bolívia, especialmente em um momento de crescente tensão social. Com as pressões internas e a necessidade de desobstruir as rodovias, o governo de Rodrigo Paz agora possui mais liberdade para agir, mas isso também levanta questões sobre o equilíbrio entre a segurança e as liberdades civis em um contexto de descontentamento popular.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br