© Lula Marques/ Agência Brasil.
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A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, atuante no Senado Federal, deu um passo significativo em suas investigações ao aprovar, nesta terça-feira, as convocações dos ex-governadores Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, e Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, além do ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. A medida reflete a urgência da comissão em aprofundar a análise sobre a infiltração do crime organizado em estruturas estatais e financeiras, buscando esclarecer possíveis irregularidades e omissões que possam ter favorecido a atuação de grupos ilícitos no país.

Relações Controversas no Distrito Federal: O Caso Ibaneis Rocha

A decisão de convocar Ibaneis Rocha, conforme requerimento do senador Alessandro Vieira (MDB-SE), visa desvendar as complexas relações comerciais estabelecidas entre o escritório de advocacia fundado pelo ex-governador e entidades sob escrutínio da Polícia Federal. Vieira enfatiza a necessidade de compreender os critérios por trás das decisões governamentais relativas às negociações entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, transações que levantaram sérias questões sobre possível favorecimento.

Informações preliminares, citadas pelo senador, indicam que o escritório de advocacia de Ibaneis manteve contratos milionários com empresas vinculadas ao Grupo Reag Investimentos e ao Banco Master, ambos alvos de investigações federais. Além disso, teriam sido identificadas transferências financeiras consideradas atípicas, provenientes do Grupo J&F. O relator da CPI aponta ainda para uma suposta interferência pessoal do ex-governador na aprovação da aquisição, pelo BRB, de R$ 12,2 bilhões em créditos questionáveis do Banco Master, de Daniel Vorcaro.

Rio de Janeiro: Laboratório do Crime Organizado e a Convocação de Cláudio Castro

A convocação de Cláudio Castro é estratégica para a CPI obter um panorama abrangente das falhas institucionais e gargalos que dificultam o combate à lavagem de dinheiro e à asfixia financeira de organizações criminosas no estado do Rio de Janeiro. O senador Alessandro Vieira ressalta que o depoimento do ex-governador é crucial para mapear a capilaridade da infiltração criminosa no aparato estatal fluminense, um desafio crescente para as autoridades de segurança pública.

O Rio de Janeiro é caracterizado por Vieira como um "laboratório" das mais sofisticadas dinâmicas do crime organizado no país, onde a antiga distinção entre facções do narcotráfico e milícias, compostas por agentes e ex-agentes de segurança, evoluiu para uma perigosa simbiose, a chamada "narcomilícia". Esta complexa mutação no cenário criminoso torna a oitiva de Cláudio Castro indispensável para que a Comissão avance em seus trabalhos, fornecendo elementos para entender a profundidade e a natureza dessa infiltração criminosa.

O Papel do Banco Central na Prevenção: Roberto Campos Neto como Testemunha Qualificada

A CPI também aprovou a convocação de Roberto Campos Neto, que esteve à frente do Banco Central entre 2019 e janeiro de 2025. Diferente dos ex-governadores, a solicitação de Vieira destaca que a convocação não implica qualquer atribuição de responsabilidade prévia pelos fatos investigados, mas sim o interesse em ouvi-lo na condição de testemunha qualificada. O objetivo é compreender os procedimentos, instrumentos e práticas institucionais adotados pelo Banco Central que possam contribuir significativamente para o combate ao crime organizado e à lavagem de dinheiro no país.

A comissão busca elucidar como as políticas e a estrutura do Banco Central atuam na fiscalização do sistema financeiro para prevenir e detectar atividades ilícitas, especialmente aquelas ligadas à movimentação de recursos do crime organizado. A experiência e o conhecimento de Campos Neto sobre as engrenagens regulatórias e de supervisão são considerados valiosos para a construção de um entendimento mais robusto sobre a capacidade do Estado de asfixiar financeiramente as quadrilhas e proteger a integridade do sistema financeiro nacional.

Persistência na Investigação e Ampliação de Medidas

As convocatórias para Ibaneis Rocha, Cláudio Castro e Roberto Campos Neto foram emitidas após reiterados convites da comissão, aos quais os citados não compareceram. Esta insistência em garantir suas presenças demonstra a determinação da CPI em obter os esclarecimentos necessários para suas investigações. Além dos nomes de grande projeção, os senadores também aprovaram a convocação de Renato Dias de Brito Gomes, ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central do Brasil, a fim de complementar as informações sobre a atuação da autarquia na prevenção e combate a ilícitos financeiros.

Adicionalmente, a CPI avançou na aprovação de pedidos de quebra de sigilo de pessoas físicas e jurídicas. Essas requisições, já analisadas anteriormente, foram reavaliadas e aprovadas conforme as novas exigências estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), garantindo a legalidade e a robustez das provas a serem coletadas. Tais medidas são consideradas essenciais para traçar o rastro financeiro das organizações criminosas e identificar seus ramificações e conexões, tanto no setor público quanto no privado.

Com essas convocações estratégicas, a CPI do Crime Organizado sinaliza sua determinação em aprofundar a investigação sobre a complexa rede de atuação de grupos criminosos, abrangendo desde a esfera política e administrativa até o sistema financeiro. Os depoimentos de Ibaneis Rocha, Cláudio Castro e Roberto Campos Neto são aguardados com grande expectativa, na esperança de que possam lançar luz sobre mecanismos de corrupção e lavagem de dinheiro, contribuindo para fortalecer as instituições, combater a impunidade e desmantelar estruturas criminosas que afetam a sociedade brasileira.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br